Essa talvez seja a dúvida mais polêmica da nutrição: “carne vermelha causa câncer?”
É muito comum ouvir frases como:
“Evite carne vermelha, ela aumenta o risco de câncer.”
Ou então ver dados como este:
O Rio Grande do Sul lidera o consumo de carne no Brasil…
E também está entre os estados com maiores taxas de câncer colorretal.
Mas será que essa associação faz sentido?
Ou estamos olhando só para a ponta do iceberg?
Vamos refletir.
FATO 1: Carne sempre foi parte da dieta humana.
A carne vermelha é consumida há milênios — por povos tradicionais, caçadores-coletores, centenários da Sardenha e da Geórgia…
No entanto, os casos de câncer dispararam apenas nas últimas décadas.
Por quê?
Se sempre comemos carne…
Por que o câncer virou uma epidemia só agora?
Vamos aprofundar.
FATO 2: Estudos que “culpam” a carne não provam causa.
A maioria desses estudos são observacionais — e mesmo pesquisas de laboratório ou revisões recentes não estabeleceram uma relação causal direta entre o consumo de carne fresca (sem aditivos ou ultraprocessamento) e o câncer. De fato, não existem ensaios clínicos randomizados (RCTs) de alta qualidade que sustentem essa afirmação.
O que observamos são correlações fracas e com muitas variáveis confundidoras.
As pessoas que mais consomem carne nesses estudos geralmente:
— também fumam mais
— bebem mais álcool
— têm dietas ricas em ultraprocessados
— são mais sedentárias
Ou seja, o problema não é a carne isoladamente.
É o contexto em que ela costuma aparecer.
Vamos entender os tipos de estudos…
- Estudos observacionais.
São os mais comuns nesse debate.
Incluem:
Coortes populacionais (como EPIC, Nurses’ Health Study, etc.)
Questionários alimentares e análises estatísticas de grandes grupos
Problema:
Eles não controlam todas as variáveis, então só mostram correlação.
Exemplo: pessoas que comem mais carne também fumam mais, se exercitam menos, consomem mais fast food — e isso tudo confunde os resultados.
- Estudos mecanísticos ou in vitro.
São feitos em células ou animais, observando compostos específicos da carne (como ferro heme ou HCA em carne grelhada em alta temperatura).
Problema:
Esses estudos não representam o consumo real em humanos e costumam usar doses exageradas ou isoladas de compostos.
- Ensaio clínico randomizado (RCT)
Esse é o “padrão ouro” da ciência — e não existem RCTs mostrando que o consumo de carne de verdade aumenta o risco de câncer.
Na verdade, alguns RCTs e revisões sistemáticas recentes desafiaram essa ideia:
Por exemplo:
Annals of Internal Medicine (2019) — Revisão sistemática:
Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31569235
FATO 3: Por que o Sul do Brasil tem mais câncer?
Sim, o Rio Grande do Sul tem consumo elevado de carne.
Mas atenção: isso não prova que a carne é a causa.
Vários outros fatores epidemiológicos importantes também estão presentes na região.
Por exemplo.
- Alta prevalência de tabagismo em áreas rurais do RS (em Pelotas, por exemplo, cerca de 16,6% dos adultos fuma diariamente). PMC
- O Rio Grande do Sul é o maior produtor de tabaco do país, com atividade rural intensa — o que tradicionalmente está associado ao uso frequente de cigarros, e estresse ocupacional.
- O consumo excessivo de álcool e a cultura de bebedeiras rurais também contribuem como fator adicional de risco para câncer colorretal.
E, claro, há ainda outros fatores relevantes, como:
- uso intenso de agrotóxicos
- padrões alimentares baseados em farinhas, açúcares e embutidos industrializados
Além disso, o tipo de preparo importa:
Carne queimada, churrasco constante com gordura carbonizada, embutidos com nitritos…
Tudo isso pode gerar compostos potencialmente cancerígenos, quando em excesso.
Mas isso não é culpa da carne fresca, e sim do modo de vida e de preparo.
FATO 4: O câncer pode começar nas mitocôndrias.
Pesquisadores como o Dr. Thomas Seyfried (Boston College) e outros defensores da Teoria Metabólica do Câncer afirmam que muitos tipos de câncer começam com disfunções mitocondriais — e não com mutações genéticas espontâneas.
Ou seja, a célula perde a capacidade de gerar energia de forma eficiente. E isso abre caminho para alterações malignas.
E o que danifica as mitocôndrias?
👉 Excesso de açúcar
👉 Óleos vegetais refinados
👉 Inflamação crônica
👉 Deficiência de nutrientes
👉 Estresse oxidativo
Mas e o câncer em crianças?
Essa é uma objeção válida.
Em muitos casos, o câncer infantil tem origem genética, congênita ou envolve exposições ambientais específicas (toxinas, poluentes, disfunções metabólicas hereditárias).
Ou seja: o câncer não tem uma única causa.
Mas nos adultos, a disfunção mitocondrial associada ao estilo de vida parece ser a via mais comum.
FATO 5: Seu corpo precisa saber digerir carne.
Em algumas populações com dietas pobres em proteínas animais por muito tempo, o sistema digestivo pode reduzir a produção de ácido clorídrico e enzimas proteolíticas.
O resultado?
Sensação de peso, má digestão, rejeição da carne…
Mas o problema não é a carne — é a falta de preparo do organismo para digeri-la.
E isso pode ter consequências maiores do que se imagina:
🔸 A má digestão gera fermentação anormal no intestino
🔸 Isso favorece inflamação crônica
🔸 A absorção de nutrientes essenciais é prejudicada
🔸 E com o tempo, as mitocôndrias sofrem por falta de substrato e sobrecarga tóxica
👉 O resultado?
Um ambiente interno propício para disfunções metabólicas e até o surgimento de câncer em alguns casos.
Ou seja, o problema não está na carne, está no sistema digestivo — está num organismo que desaprendeu a digerir carne.
Importante também separar as coisas: carne fresca, natural e sem aditivos é uma coisa.
Já produtos ultraprocessados, cheios de aditivos artificiais, como a maioria das salsichas, mortadelas, nuggets… são outra completamente diferente.
E o problema é que muitos dos estudos que associam carne ao câncer não fazem essa distinção com clareza.
O resultado? Uma distorção nos dados — e um medo injusto da carne de verdade.
Carne de verdade, sem ultraprocessamento, é um dos alimentos mais densos e biodisponíveis em nutrientes essenciais para o funcionamento celular.
Ela fornece compostos que sustentam a saúde das mitocôndrias e ajudam o corpo a combater o estresse oxidativo e a inflamação — duas das raízes do câncer.
👉 Coenzima Q10 (protege as mitocôndrias)
👉 Carnitina (transporta ácidos graxos para gerar energia)
👉 Ferro heme (absorção superior ao ferro vegetal)
👉 Zinco (fundamental para reparo celular)
👉 B12 (evita mutações no DNA)
👉 Creatina (apoia regeneração celular e energia)
👉 Proteína completa (com todos os aminoácidos essenciais)
Em conjunto, esses nutrientes ajudam a manter as mitocôndrias saudáveis, equilibram processos celulares e previnem o ambiente interno que favorece o surgimento do câncer.
Um estudo publicado na Nature Reviews Cancer já afirmou: a disfunção mitocondrial pode ser um evento chave na iniciação do câncer — antes mesmo das mutações genéticas.”
(→ Wallace DC. Mitochondria and cancer. Nat Rev Cancer. 2012 Oct;12(10):685-98.)
Link do estudo aqui.
Agora, pense comigo…
No meio de tanto açúcar, álcool, fritura em óleo vegetal e comida ultraprocessada carregada de aditivos químicos…
Apontar o dedo para a carne parece mais um desvio de foco do que uma conclusão científica.